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Uma pequena leitura de Reich

“Será que o panorama do mundo contemporâneo, e o da Saúde Mental em especial, se apresenta tão sinistro que encontrar um conjunto de escritos que defende de modo talentoso a vida, a liberdade e a invenção é uma espécie de bálsamo para os espíritos pesarosos e injuriados por este sombrio horizonte?”.

Baremblitt, Gregorio em Saúde e Loucura 4



É dessa forma que devemos ler Reich, um legado que do início ao fim defende de modo talentoso a vida, a liberdade e a invenção. Reich foi um pensador independente, um trabalhador vigoroso e um cientista grandioso. Teríamos que escrever vários livros para comentar cada uma de suas descobertas e quais as implicações que isso acarretou para os tempos atuais.

Elizabeth Roudinesco no final de seu livro sobre a vida e a obra de Lacan cunha uma excelente expressão - refere-se aos analistas independentes como os “praticantes do inconsciente” e os define como profissionais que não crêem mais na superioridade de uma técnica sobre outra e crêem nas mudanças sociais e culturais.

Reich deixou um legado sólido no que diz respeito à clínica. Praticou bastante e sempre refletiu sobre ela ampliando-a e questionando-a. Cada descoberta que fazia gerava muitas vezes um novo olhar sobre ela. Isso fez com que criasse elementos tanto teóricos quanto técnicos de transformação profunda e eficaz do ponto de vista prático.

Graças a esse olhar criou uma visão energética sobre o homem territorializando-o em sete segmentos. Dinamizou esses segmentos em dois conceitos básicos a contração energética e a expansão energética. Isso significa que todos os segmentos são percorridos por essa dinâmica. Essa dinâmica é moldada pela história do sujeito que cria uma determinada formação corporal (couraça). Isso pode ser gerador ou não de sofrimentos permanentes e repetitivos diretos que são as patologias. Essas “patologias”, para Reich, podem ser passíveis de transformação em qualquer circunstância.

Esses sofrimentos podem se expressar de várias maneiras. Essas maneiras que vão caracterizar o tipo, a origem e o quantum de incômodo ou sofrimento psíquico. Os sofrimentos criam barreiras impeditivas para esse fluxo energético, deixando de ser um canal de expressão e de comunicação energético-sensorial. A mente que sofre é o mesmo corpo que sofre.

Para Reich, apesar de ser um homem que nasceu em 1897, lutou na primeira guerra, viu os horrores da segunda, sempre acreditou que a felicidade e a alegria eram estadas naturais, obtidas em combinação de fluxos comunicacionais energéticos. Essa energia percorre tudo que tem vida. Tudo ao nosso redor pulsa e quando sofremos essa pulsação diminui e a comunicação entre nós e nós mesmos, nós e outras pessoas, nós e outros seres vivos, nós e o planeta, nós e o universo fica profundamente limitada a poucos canais. Essa limitação se é determinada pela história de cada um.

Essa comunicação energética sensorial se dá em um campo que pode ser pessoal interpsíquico, pessoal intrapsíquico, grupal e cultural. A preponderância, a função e a utilidade de cada uma dessas comunicações é que vai nos dar a leitura de uma determinada couraça.

Uma falha ou interrupção da comunicação interpsíquica vai nos revelar sobre o sofrimento psíquico como os transtornos descritos no Código Internacional das Doenças (CID) ou no Manual de Diagnósticos e Estatísticos de Transtornos Mentais (DSM). Já uma falha na comunicação intrapsíquica vai nos revelar o que Reich chama caráter. O interpsiquico e o intrapsiquico se complementam e se interdependem como a pele/músculos (caráter) e o resto do

corpo. Para Reich esse corpo não precisa sofrer desnecessariamente e qualquer sofrimento longo é inútil, é doente.

Esse sofrimento inútil, na maioria das vezes é construído desde os pequenos grupos inclui-se aí a família e sua forma de comunicação. Essa família está inscrita e inserida num grande grupo que forma e é formada e atende pela denominação de cultura. Cada cultura pertence a um momento histórico diferente que vai refletir o inter e o intrapsiquico. Chamamos a isso de influência, de tendências.

Hoje em dia uma das coisas que mais vemos como mal estar é o vazio, o consumo desenfreado e não o que Reich chamava tanto a nossa atenção – a repressão. Mas mesmo sendo “confrontados a cada dia com os poderosos ideais do êxito social, do consenso liberal, do fanatismo, do oculto e do cientificismo” (Roudinesco), percebemos que Reich que não viu esse tempo previu formas extremamente revolucionárias e eficazes de tratar esses males.


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