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Um pouco sobre W. Reich [Parte I]

Assino meu título de trabalho como orgonoterapeuta e percebi que é importante falar de minhas origens teóricas e ideológicas. Sou uma das fundadoras do Centro Reich do Rio de Janeiro e também da clínica social de terapia reichiana.


O Centro Reich do Rio de Janeiro começou em 1990 como ICIOR (Instituto Brasileiro de Ciências Orgonômicas). Seu objetivo era um espaço para atendimentos clínicos e formação de psicoterapeutas de base reichiana engajados e preocupados com as mudanças institucionais que estavam ocorrendo no mundo, cuja expressão máxima eram as relações familiares e amorosas.

Desde meados da década de 70, essas mudanças vinham ocorrendo com o questionamento cada vez mais intenso do papel da mulher nas relações familiares e amorosas. Com isso os homens heterossexuais vinham perdendo espaços consagrados.

Em 80 a instituição familiar, estruturada como estava, era cada vez mais vista como obsoleta. O movimento gay avançava também. Os homossexuais masculinos morriam tristemente como moscas levadas injustamente pela AIDS, e eles felizmente não queriam ficar sozinhos com sua dor. Trouxe também no seu rastro de morte outra denúncia: o prazer sexual que os homossexuais tinham. Um prazer sem compromisso com a família, como estrutura anterior.

Com esse panorama que nos chamava bastante a atenção vinha outro local que era a reconquista da luta pela democratização do país e o conseqüente avanço da cidadania. Isso vinha acontecendo desde os anos 80 com o movimento pela anistia, as greves agora também da classe média principalmente dos médicos e professores que estavam sendo obrigados a se “operarizarem”. Foi também o começo da era da inflação. Isso realmente atingia a todos.

No meio disso tudo existíamos nós terapeutas reichianos. Pequenos, muito pequenos, muitíssimo menores que a psicanálise, que nos anos 80 já começava a ficar mais robusta e ser de grande ajuda nos momentos de aflição das instituições que estavam sendo transformadas. Então, como nós poderíamos participar nesse caldeirão caótico?

Bem, Reich já era um caldeirão caótico. Pelas pessoas que o representavam pelo mundo afora, pelas suas próprias idéias e forma de tratamento.

Quanto às idéias de Reich dividíamos em vários períodos cronológicos e várias direções.O período europeu entre guerras; o período da direção psicanalítica e o da vegetoterapia, ou corporalista – o da inserção do corpo na psicoterapia e o terceiro do pós-guerra nos Estados Unidos – o energético.

O primeiro período foi o período psicanalítico onde Reich contribuiu muito com conceitos técnicos ampliando noções sobre resistência, transferência e caráter, dentre outros. Segundo Roudinesco no seu Dicionário de Psicanálise “foi o criador do freudo-marxismo, o teórico de uma análise do fascismo que marcou todo o século e o artífice de uma reformulação da

técnica psicanalítica que se apoiava em uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise”.Só isso. Todas essas direções podiam ser transversalizadas o que por si ‘só é de uma grande riqueza, como podiam ser recortadas e descaracterizadas o que era uma grande perda. Tentávamos ficar com a primeira opção. Isso nos levava a buscar outros saberes complementares e buscávamos nos aprofundar na leitura de Deleuze, Guattari, Foucault, epistemologia, ética. Achávamos que o consultório particular também era um espaço de reflexão e pesquisa. Para isso precisávamos de bases sólidas como o respeito, a solidariedade e a revisão constante de nossos sofrimentos psíquicos e preconceitos.Tínhamos a clareza de trabalhar com pessoas em sofrimento psíquico na maioria das vezes muito grave. A escolha de Reich como nosso “orientador” clínico também se deveu a escritos seus em que trabalhava com pessoas com graves sofrimentos psíquicos e principalmente à união entre corpo/mente/emoção/energia.

Reich também tinha características pessoais marcantes. Era um apaixonado, um trabalhador de grande energia extremamente coerente com suas idéias. Ele não olhava e opinava sobre todas as coisas que via. Ele se envol – via realmente. Nesse período dirigia um seminário de sexologia, criou uma clínica de atendimento psicanalítico a preços acessíveis, publicou uma revista marxista, era o único psicanalista que tinha contato com a Rússia comunista e participava dos debates que ocorriam lá sobre psicanálise, criou a SEXPOL, que o indispôs com a sociedade psicanalítica e o partido comunista sendo expulso dos dois.

No segundo período que chamaremos de corporalista, já na Dinamarca e Noruega, desenvolveu e estruturou o trabalho de psicoterapia corporal que chamou de vegetoterapia.

Esse trabalho era estruturado em conceitos sobre a energia, que acreditava elétrica e percorria o organismo, o orgasmo e sua função. Tecnicamente foi um dos períodos mais ricos. Desenvolveu vários exercícios que podemos dizer hoje em dia, despertava o corpo.Muitos próximos de algumas formas de yoga e do taoísmo.

O corpo não era mais algo a ser escondido, era algo a ser olhado e integrado ao psiquismo. O corpo também era psíquico e o psíquico também estava no corpo.

Acrescentou à sua obra novos conceitos sobre a dinâmica do funcionamento do psiquismo já descrito por Freud. Repudiou a pulsão de morte como estruturante do psiquismo. A base do funcionamento psíquico era a pulsão de vida. Nós nascíamos mergulhados nela e dependendo do nosso desenvolvimento emergíamos para a pulsão de morte. Para ele a pulsão de morte não era considerada o fim ou os limites naturais, era a paralisia, a destruição gratuita, a morte em vida, a doença.

Foi para os Estados Unidos e lá a princípio com a euforia do pós-guerra conseguiu criar uma das mais brilhantes teorias psíquicas já construídas. Dotou-nos de um poder de vida maravilhoso sempre em movimento, unido ao cosmos, que chamou de potência orgástica. Conseguiu conceituar a felicidade. A felicidade não só se tornou possível como podia ser alcançada. Precisava de muito pouco: um reencontro com nosso cerne biológico, cuja matéria prima era o amor constituído dessa energia vital que em tudo estava – o órgon. Fabricou aparelhos que o capturavam, inventou exercícios que nos tornavam mais próximos de seu alcance.

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