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OBSESSÃO x CRIAÇÃO



Nós reagimos à vida e as dificuldades que vem dela de diversas maneiras. Quanto mais felizes formos, ou seja, em linguagem reichiana, quanto mais em expansão e desencouraçados estivermos, mais potentes ficaremos. Isso tem uma conseqüência imediata, que é lidarmos com todas as situações naturalmente integradas e isso pode ser com criatividade, de forma viva, prazerosa.

A essa forma anterior se contrapõe vários opostos que no fundo é o que chamamos transtornos ou sofrimentos psíquicos. Esses transtornos e sofrimentos como descobriu Freud, podem ter sua origem numa espécie de falha ou falta que aconteceu no nosso desenvolvimento psíquico. Algo que não tivemos que nos faltou (danos) ou algo que sofremos e não compreendemos (traumas). Quanto mais cedo e mais repetidamente acontecerem traumas e danos, mais dificuldades a pessoa terá para se estruturar de forma saudável, tendo mais dificuldades para enfrentar os tropeços da vida.

Por exemplo: entre 3-5 anos estamos preparados psíquica e biologicamente para aprender uma qualidade psíquica que se chama obstinação. Ela é uma das qualidades que nos ajudam a transpor frustrações e não desistir do que queremos.

Entre 3 e 5 anos estamos fortalecendo nossos músculos. Precisamos deles para ficar de pé e nos locomovermos com maior facilidade. Isso nos dá um prazer primário que nos permite controlar ou alterar o meio que nos rodeia, dentro das nossas perspectivas.

Se isso nos é garantido com proteção, segurança e sem cerceamento dos nossos movimentos passamos por essa fase adquirindo dela o melhor que ela pode nos dar: mais autonomia, mais persistência, o começo do reconhecimento do espaço do outro, coordenação motora, mais resistência imunológica. Tudo isso junto dará um somatório importante sendo um dos principais resultados a obstinação.

É claro, que tudo isso vai depender de outras fases de desenvolvimento anteriores e posteriores melhor sucedidas do que pior sucedidas. O nosso desenvolvimento psíquico só para quando morremos, mas existem momentos mais marcantes que outros. A primeira infância é o mais importante, é quando estamos nos constituindo como seres, é o nosso alicerce. Por exemplo: todo desenvolvimento motor gera determinados afetos, desejos, que tem uma representação inconsciente. A essa representação Freud dá o nome de pulsão.

Voltando ao assunto anterior, aos 3-5 anos, se as coisas derem erradas de uma determinada forma nessa perspectiva o que acontece é um reverso desse momento que poderia gerar liberdade, autonomia. Acontecendo momentos desastrosos nessa idade, essa autonomia não bem produzida em algumas pessoas gera como diz Freud, uma pulsão de dominação que originariamente não teria por alvo o sofrimento alheio, mas que simplesmente não o levaria em conta.

Se não foi dada a essa criança a segurança necessária (dano psíquico) ou se aconteceu alguma coisa muito ruim e difícil que ela não entendeu (trauma), ela desenvolve um prazer primário que lhe permite controlar ou alterar o meio e principalmente as pessoas que o rodeia de forma obsessiva e compulsiva (compulsão - motivação irresistível para realizar um ato irracional). Ela desenvolve uma pulsão de dominação que surge principalmente nos momentos mais difíceis, como os de perda inexplicável, chocante.

Refugiam-se então à pulsão de dominação e podendo até ficarem socialmente isolados, obtendo níveis de aquisição menores que os esperados e frequentemente experimentando alterações em todo o seu meio.

Se junta a isso uma ruminação sofrida e improdutiva. Algumas pessoas partem para a ação podendo passar essa ruminação adiante em forma de ações, podendo chegar em alguns momentos a guerrilhas pessoais profundamente intransigentes. A mesma exigência desmedida que tem consigo mesmo, que tiveram com eles no passado é a mesma que jogam adiante no objeto de suas obsessões.

Isso não tem um fim natural, ou seja, como não é um processo saudável, se não houver uma intervenção psicoterapêutica pode continuar se deslocando indefinidamente.

No processo terapêutico, pode-se refazer o caminho voltando os sentimentos para o dentro de si mesmo em busca de momentos de gratificação afetivas verdadeiras. Com um interlocutor presente verdadeiramente, em contato, a pessoa consegue internalizar o que achar mais necessário para recriar-se nesse intervalo. Reconstruir o necessário seria como refazer uma frase de uma sinfonia inacabada.

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