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O PODER PESSOAL




Muitas pessoas sofrem terrivelmente de ilusões de poder (alguns tipos de psicopatas, como popularmente são chamadas, e, dentro do CID (código internacional das doenças), as pessoas que têm transtorno de personalidade ou então aquelas que têm medo de poder, o poder os persegue sob qualquer forma assumida por uma ou mais pessoas e situações. Esses certamente sofrem de transtorno delirante, o que antes se chamava paranoia.


E todos nós passamos por uns momentos desses. Em alguns queremos o poder de unhas e dentes, sem medir consequências, e em outras situações nos sentimos perseguidos por alguma coisa ou extremamente desconfiados. Depois de um tempo nessa ilusão acordamos e percebemos o nosso equívoco. Por isso, também o dito popular sábio: de louco e gênio todos temos um pouco.


No fundo estamos em busca de alguma coisa. Essa alguma coisa segundo Freud é da ordem do amor. Muitas vezes quando a perdemos de vista ficamos presos no jogo de luzes da ilusão. E muitas vezes presos na pior delas, o poder, podendo nos aprisionar em alguma das suas infinitas faces e formas. Exemplo constante disso é o poder de fato. Muito pouca gente se conserva como si mesma depois que assume um cargo de poder. Quanto mais importante for o cargo e mais duradouro, mais distante de si mesmo pode ficar. Contribuem para isso sentimentos como a desconfiança em si e no outro, a procrastinação, o êxtase de muita gente ouvindo e seguindo. Podem ser esses os principais ingredientes do coquetel de envenenamento de si mesmo, levando à vaidade absurda, a ponto de enganar constantemente pessoas, roubar e/ou matar direta ou indiretamente. Esse coquetel envenena a pessoa e os outros se não houver amor por si mesmo, dignidade, respeito pelo outro.


Vou falar de uma pessoa em particular que atendi no Nepad da Uerj há muitos anos atrás para tentar ilustrar esse grande jogo vazio que é o poder. É uma história comum, mas diferente das outras pela duração da situação. Geralmente essas situações acabam rápido, com a pessoa morrendo.


Era filho de uma família de operários extremamente pobre. Filho de pais adolescentes e criado nas ruas. Fugia de casa sempre que podia. Os pais brigavam muito e bebiam. Ele praticamente não existia. Muitas vezes sentia-se invisível, o que gostava. Levava muitas surras do pai e dizia rindo que era o único momento em que estavam de comum acordo. Não recebia nenhum incentivo para estudar, e a partir dos 10 anos era cobrado excessivamente para trabalhar. Aos 11 anos fugiu de casa e nunca mais voltou. Cometeu vários crimes. Aproximou-se do tráfico e praticava pequenos delitos na adolescência. Por fim, tornou-se chefe do tráfico daquela localidade e mais tarde de uma facção inteira. Descreve esse período como o mais feliz de sua vida. Tinha poder. Dava as cartas. Por fim, antes da sua prisão, adotou medidas cada vez mais drásticas e violentas para se manter no poder. Na prisão, depois de poucos meses, começou a perder o controle sobre as drogas e a usar doses maiores. Precisava do dinheiro que tinha para se manter vivo e no comando. Logo depois foi substituído por outro chefe e tentaram matá-lo na prisão. Escapou e mudou sua conduta. Adotou a religião evangélica e virou pastor. Anos depois saiu e aumentou o consumo de cocaína. Perdeu o controle sobre o consumo e, como disse, ficou doido. Segundo ele, perdeu sua firmeza, sua capacidade de comando. Procurou tratamento levado pela mulher que trabalhava como faxineira numa grande organização. O sonho dela era que ele parasse de se drogar para trabalhar na mesma instituição que ela. Essa instituição aceitava trabalhadores que se tratavam no Nepad.


Depois de alguns meses de tratamento conseguiu o trabalho e chegou a garçom do restaurante da empresa. Ficou livre das drogas e até hoje frequenta o NA e o AA.


Do seu vício em poder quando jovem caiu quando o perdeu no círculo vicioso das drogas. Teve pais incapazes de protegê-lo e amá-lo a partir dos 4 anos de idade. Antes, sua avó materna cuidou dele. Sentia-se protegido, talvez por isso sua capacidade de resiliência. Conseguiu sobreviver na prisão, fora dela e a mudar sua vida. Claro que tem rompantes de mau humor e autoritarismo, mas é contido de certa forma pela família e grupos que frequenta. Talvez por isso tenha conseguido ver e aceitar outro tipo de vida, não se deixando prender em sua história e conseguindo impedir outros horrores semelhantes. E saiu desse jogo.


Sabemos que o poder é um jogo. Um jogo construído por julgamentos pessoais onde se julgam os adversários por suas intenções e pelo efeito de suas ações. E é um jogo em cima de outro jogo.


Os dirigentes de grandes grupos são destacados por toda a história da humanidade. Os reis e rainhas por seu absolutismo; os ditadores de todas ideologias são os mais lembrados e imitados. E todos tinham seus cortesãos. Eram eles que mantinham a maioria das regras ocultas do jogo. O dirigente era responsável por manter a maioria das regras aparentes do jogo. Todos sabiam também que poderiam existir inúmeras regras ocultas vindas dele. E nas cortes imperavam a astúcia e a dissimulação. Quanto mais dissimulado o cortesão, mais gente acreditava nele. Quanto menos aparecia para o dirigente, mais poderoso. Quanto mais falava o que o dirigente queria, mais ouvido. Assim o jogo continuava. E essa ordem pode ir do macro se perpetuando em ondas até chegar ao micropoder das relações pessoais. Como disse W. Reich na década de 30 do século passado, nós escolhemos nossos ditadores porque no fundo queremos estar em seu lugar, possuir seu poder, por isso sua perpetuação e constância.


Uma das formas de diminuir essa perpetuação é sermos o que queremos parecer. Nada melhor na sociedade de espetáculos mediada pelas redes sociais. Se formos a nossa aparência na maioria das vezes existirá jogo?

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