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  • Grupo Neurofocus

O poder


Quando trabalhei no NEPAD (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Atenção ao Uso de Drogas da UERJ) e na Colônia Juliano Moreira, vi muitas pessoas que sofriam terrivelmente de ilusões de poder (alguns tipos de psicopatas como popularmente são chamadas as pessoas que tem transtorno de personalidade), ou medo de poder (os paranóicos).


No fundo todos nós estamos em busca de alguma coisa. Essa alguma coisa segundo Freud é da ordem do amor. Muitas vezes quando a perdemos de vista ficamos presos no jogo de luzes da ilusão. A pior ilusão da qual podemos ser prisioneiros a meu ver é o poder. E ele tem infinitas faces e milhões de formas. Tantas formas quanto o número de pessoas no planeta.


Um dos piores é o poder de fato. Muito pouca gente se conserva como si mesmo depois que assume um cargo, por exemplo. Quanto mais importante for o cargo mais distante de si mesmo pode ficar. A desconfiança em si e no outro é o principal ingrediente do coquetel de envenenamento do si mesmo, junto com a vaidade e esse coquetel envenena mais se a pessoa não tiver amor por si mesmo, dignidade, autoestima verdadeira, etc.


Vou falar de uma pessoa em particular para tentar ilustrar esse grande jogo vazio que é o poder. É uma triste história. Tratava-se de um homem que tinha sido bem sucedido no seu modo de ver em sua vida, mas que no momento em que eu o recebi para tratamento estava saindo da prisão depois de alguns anos. Tinha cometido vários crimes. Começou na infância torturando toda espécie de animais que via pelo caminho, depois botou fogo em algumas casas na adolescência e finalmente passou a torturar mulheres das mais diversas formas. Por fim, passou a fazer parte de um bando famoso. Descreve esse período como o mais feliz de sua vida. Tinha poder. Dava as cartas. O problema foi que ficou extremamente dependente de alguns tipos de drogas e a paixão pelas drogas, fez com que perdesse sua firmeza, segundo ele. Estava procurando tratamento porque estava velho e continuava a usar drogas, no momento cocaína injetável.


Eu já acho que ele ficou cada vez mais viciado em poder, e num dos piores que era o poder sobre as pessoas. Sobre seus bens, sua vida e sua morte, seu terror. Pelo que vejo o poder é a pior das drogas. Precisa-se cada vez mais de grandes quantidades para obter um pingo de saciedade e a desconfiança irmã da ilusão de poder, aumenta na mesma proporção.


Essa pessoa teve uma infância horrível. Foi violentado na infância pelo padastro e obrigado a participar de jogos sexuais com esse homem. Tinha uma mãe completamente submissa.


Esteve nas mãos, sob total poder de uma outra pessoa, muito cruel e muito mais forte. Teve uma criatura como mãe incapaz de protegê-lo e amá-lo. Isso por si só explica todo seu comportamento posterior, mas explicação não é justificativa. Explicação serve para não repetirmos a mesma história, para tentarmos impedir outros horrores semelhantes e principalmente aprendermos a jogar de forma lúdica, porque as doenças do poder são derivadas do macro poder. Esse macro poder pode ir se perpetuando em ondas até chegar ao micro poder das relações pessoais.


E o poder é um jogo. No jogo não se julgam os adversários por suas intenções, mas pelo efeito de suas ações. E ele é sempre um jogo em cima de outro jogo. Por exemplo; em toda a história sempre houve um rei, uma rainha e um bando de cortesãos. Eram esses cortesãos que mantinham a maioria das regras ocultas do jogo. O rei era responsável por manter a maioria das regras aparentes do jogo. Todos sabiam também que poderiam existir inúmeras regras ocultas vindas do rei. E na corte imperava a sutileza e a dissimulação. Quanto mais dissimulado o cortesão mais gente acreditava nele. Quanto menos aparecia mais poderoso. Quanto menos falava mais ouvido. Assim o jogo continuava.


Hoje em dia temos que parecer justos, democráticos, decentes, mas guardar nas entrelinhas a desconfiança da próxima armadilha. Se mostrarmos muita desconfiança pode parecer que somos fracos e sofridos. Se formos espontâneos podemos parecer tolos e ingênuos. Mas, se formos realmente, dentro de nossa possibilidade humana, justos, democráticos, decentes, espontâneos, confiantes existirá jogo?


Frinéa Souza Brandão, psicóloga clínica, psicanalista, orgonoterapeuta Email: frineabrandao@uol.com.br


Todas as histórias que eu contar são autorizadas pelos protagonistas e essas pessoas não fazem mais psicoterapia comigo.

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