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MEU ENCONTRO COM REICH


“Orgulho-me de estar em tão boa companhia, com Sócrates, Cristo, Bruno, Galileu Moisés, Savonarola, Dostoievski, Gandhi, Nehru, Mindszenty, Lutero e todos que combateram contra o demônio da ignorância os decretos ilegítimos e as chagas sociais... Você aprendeu a esperar em Deus assim como nós compreendemos a existência e o reino universais da Vida e do Amor. ”


Trecho da carta de Reich, quando estava na prisão, um pouco antes da sua morte, ao seu filho Peter.


Conheci Wilhelm Reich na década de 70. Era ainda estudante do segundo período de psicologia. Tínhamos um trabalho muito interessante para fazermos de metodologia científica e escolhemos instituições psiquiátricas. Era ditadura, participávamos de movimento estudantil e gostávamos muito de discutir questões políticas, arte, movimentos sociais no Brasil e no mundo. Nossa professora de metodologia cientifica tinha voltado de um exílio na Europa e antes havia passado por vários lugares da América Latina. Adorávamos suas aulas e foi através delas que conhecemos a História da Loucura, de Foucault, e Psicologia de massas do fascismo, de Reich, dentre outros autores instigantes. Fizemos um trabalho muito criativo e, numa de suas etapas, selecionamos várias fotos de prisões no Brasil e várias de hospitais psiquiátricos. A intenção era a de que as pessoas, nossos colegas, nomeassem o que era prisão e o que era hospital psiquiátrico. Ninguém acertou. Isso revelava muito sobre essas instituições e principalmente sobre os hospitais psiquiátricos. Terminávamos o trabalho falando das condições bárbaras a que todas aquelas pessoas estavam submetidas e perguntávamos que crimes hediondos as pessoas presas nos hospitais psiquiátricos haviam cometido.


Nesse momento, conheci melhor Reich e sua tese de que nós escolhemos nossas instituições, nós somos responsáveis por elas e pelo mundo que nos cerca e também dizia que todas as doenças eram emocionais e socais também. Isso hoje em dia é claro, está aí o Alzheimer para nos mostrar isso, mas no final dos anos 70 era uma grande novidade.


Bem, Reich já era um rico caldeirão caótico. Pelas pessoas que o representavam pelo mundo afora, pelas suas próprias ideias e formas desconhecidas de tratamento.


Tentando entendê-lo como tentávamos entender a época em que estávamos inseridos, começamos a nos debruçar sobre suas ideias. Só a divisão cronológica de sua obra não nos satisfazia. Dividimos os períodos cronológicos em suas direções teóricas. Contávamos com mestres que aprenderam em seu exílio, ou viagens de estudo, sobre suas técnicas e teoria.


Nós, segunda geração de reichianos no Rio de Janeiro, resolvemos fazer, diante da ajuda dessas pessoas, uma divisão que compreendeu: o período europeu entre guerras; o período da direção psicanalítica e o também europeu da vegetoterapia ou corporalista – o da inserção do corpo na psicoterapia e o terceiro do pós-guerra nos Estados Unidos – o energético.


Ficamos fascinados com o que descobríamos, tanto na técnica quanto na teoria que construía junto com a técnica suas inovações e contribuições. O primeiro período foi o período psicanalítico, em que Reich colaborou com conceitos técnicos, ampliando noções sobre resistência, transferência e caráter, dentre outros. E num outro campo, segundo Roudinesco, no seu Dicionário de Psicanálise “foi o criador do freudomarxismo, o teórico de uma análise do fascismo que marcou todo o século e o artífice de uma reformulação da técnica psicanalítica que se apoiava em uma concepção da sexualidade mais próxima da sexologia que da psicanálise”.


Todas essas direções podiam ser transversalizadas, o que por si só é de uma grande riqueza, como podiam ser recortadas e descaracterizadas o que era uma grande perda. Tentávamos ficar com a primeira opção. Isso nos levava a buscar outros saberes complementares e buscávamos nos aprofundar na leitura de Deleuze, Guattari, Foucault, epistemologia, ética. Achávamos que o consultório particular também era um espaço de reflexão e pesquisa. Tínhamos a clareza de trabalhar com pessoas em sofrimento psíquico, na maioria das vezes, muito grave. A escolha de Reich como nosso “orientador” clínico também se deveu a escritos seus em que trabalhava com pessoas com graves sofrimentos psíquicos e, principalmente, à união de corpo/mente/emoção/energia.


As características pessoais de Reich também nos cativaram. Era um apaixonado, um trabalhador de grande energia extremamente coerente com suas ideias. Ele não olhava e opinava sobre as coisas que via. Ele se envolvia realmente.


No período psicanalítico, dirigiu um seminário de sexologia; criou, junto com outros psicanalistas, uma clínica de atendimento psicanalítico a preços acessíveis; publicou uma revista marxista, era o único psicanalista que tinha contato com a Rússia comunista e participava dos debates que ocorriam lá sobre psicanálise; criou a SEXPOL (seminários de política sexual para esclarecimento sobre atividades sexuais/afetivas), que o indispôs com a sociedade psicanalítica e o partido comunista, sendo expulso dos dois.


No segundo período que chamaremos de corporalista, já na Dinamarca e Noruega, desenvolveu e estruturou o trabalho de psicoterapia corporal que chamou de vegetoterapia, fazendo experimentos com aparelhos que mediam impedância da pele. Com esses experimentos descobriu uma energia corporal da qual acreditou sermos dotados.


Tecnicamente, foi um dos seus períodos mais ricos. Desenvolveu vários exercícios que podemos dizer, hoje em dia, despertava o corpo. Muitos, próximos de algumas formas de yoga e de aplicações do taoísmo. Para ele o corpo não era algo a ser escondido, era algo a ser olhado e integrado ao psiquismo. O corpo também era psíquico e o psíquico também estava no corpo.


Acrescentou à sua obra novos conceitos sobre a dinâmica do funcionamento do psiquismo, já descrito por Freud. Repudiou a pulsão de morte como estruturante do psiquismo. A base do funcionamento psíquico era a pulsão de vida. Nós nascíamos mergulhados nela e, dependendo do nosso desenvolvimento, emergíamos para a pulsão de morte. Para ele, a pulsão de morte não era considerada o fim ou os limites naturais, era a paralisia, a destruição gratuita, a morte em vida, a doença.


Foi para os Estados Unidos e lá, a princípio, com a euforia do pós-guerra conseguiu criar uma das mais brilhantes teorias psíquicas já construídas. Dotou-nos de um poder de vida maravilhoso, sempre em movimento, unido uns aos outros e ao cosmos. Deu-nos conceitos como contato, cerne biológico, potência orgástica, dentre outros.


Usando de licença poética, podemos dizer que conseguiu conceituar a felicidade. Precisava de muito pouco: um reencontro com nosso cerne biológico, cuja matéria-prima era o amor constituído dessa energia vital que em tudo estava – o “órgon”, e que em relações seria possível tocá-la.


Exatamente o oposto do que acontece hoje nas relações sociais, o descarte dos laços afetivos em todas as instâncias, os vínculos sem compromisso. O que Zygmunt Bauman chama de “amor líquido”. O oposto do que Reich chama de bem-estar, de saúde, que podemos denominar amor energético, sentido, modificável e transformador. O que acontece hoje é um relacionar-se sem demonstração de afeto, interesse, o medo de prender-se a alguém, a ilusão de achar que não é afetado pelo outro. Dessa forma, várias escolhas ficam definidas pelas relações bolhas, pelas relações caixas e pelas relações máquinas. Nessa ilusão de descuidado contrário ao conceito de cuidado de Heidegger no Ser e o Tempo, o ser contemporâneo pensa estar se desvinculando, se tornando indisponível nos seus descartes constantes, mas, como é impossível ser um ser fora do mundo, ele é sempre um ser no mundo. Para Reich, um ser que tenta se desconectar se “encouraça” e adoece. E como nos lembra Rolnik, podemos vislumbrar outras formas de estar com ser no mundo, uma forma mais suave e, para Reich, mais dinâmica, mais energética, o oposto do peso do vazio, do não compromisso.


Teoricamente, Spinoza é um antepassado de Reich e Deleuze, um filho, por pensarem em seres saudáveis, alegres, éticos e em contato no seu cotidiano. Espinoza dotou a filosofia de um corpo, e Reich dotou a psicoterapia de um corpo potente.


E voltando à teoria da técnica, gostaríamos de lembrar que Reich é tio da Psicanálise do Ego, avô da Mindfullness, pai de todas as psicoterapias corporais e da micropolítica e das psicoterapias observadoras e interventoras do comportamento.

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