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  • Grupo Neurofocus

Caso Clínico

Atendi há pouco tempo uma mulher em grave estado de sofrimento. Era uma mãe que perdeu seu filho de 16 anos.

Estava na ocasião com 35 anos.

Não sentia sabores, cheiros. Dormia muito pouco sempre acordando três horas antes do tempo em que aconteceu a tragédia. Além disso, se alimentava muito pouco. Não tinha fome e praticamente não sentia o sabor dos alimentos, com exceção dos altamente calóricos, de sabor adocicado.

Estava saindo de casa, quando soube que seu filho morreu. Entrou em pânico. O que viu a seguir, seu filho morto, fez com que entrasse num estado próximo ao colapso.

A partir daí, não saiu mais do choque. Todas as suas relações afetivas estavam se deteriorando em pequenas desistências. Não conseguia investir nenhum afeto em nenhuma situação. Estava completamente transtornada e bloqueada. Seu comportamento era mecânico e sem vida.

Antes desse acontecimento descrevia-se como uma mulher ativa, alegre.

Estava em um estado de grave estresse pós-traumático.




Ela estava assim.

Só se sentia mal. Uma culpa imensa pela situação. Achava que não havia dado atenção suficiente ao filho, que tinha se omitido e outros julgamentos terríveis.

Dessa forma, culpando-se, trazia para si toda a situação traumática, mudando de posição. De vitima passava a maior orquestradora da sua própria história. Como não tinha como intervir durante a situação traumática, construiu uma história de culpas onde podia ordenar e entender. Por pior que fosse estava no controle. Mesmo que ilusoriamente.

Trabalhamos diretamente as emoções penosas e onde elas se localizam no corpo. Depois de algumas sessões sentimentos como culpa, e emoções como a raiva e o medo diminuíram muito. Os sintomas como vômito e náusea acabaram. Seu sono, embora entrecortado e com muitos pesadelos, melhorou.

Trabalhamos o sentido afetivo nos pesadelos.

A partir daí pôde fazer o luto. Sua apatia acabou e todos os sintomas ligados ao estresse pós-traumático também.

No caso dessa paciente grande parte desse sucesso terapêutico se deveu a sua história de vida. Foi uma criança que teve pais amorosos, liberdade de expressão e uma vida até o início da vida adulta, segura economicamente. Nasceu e viveu até os dezessete anos numa pequena cidade do interior, com pais presentes e amorosos. Mudou-se para o Rio de Janeiro, ao engravidar-se de seu namorado. Como ele já morava no Rio, casou-se e veio para cá.

Quando seu filho estava em idade escolar começou a trabalhar, tendo capacidade para construir um trabalho agradável.

Seu filho era um garoto que estudava, tinha amigos, não se drogava. Respeitava as pessoas, a vida.

Uma bala cruzou seu caminho e levou sua vida.

Sua mãe vive. Hoje consegue até se sentir feliz em muitos momentos.

Conseguiu finalmente dar outro significado para sua vida. Livrando-se da culpa pode voltar a respirar. Como toda história pessoal tem um final, não recuperou seu filho morto, mas luta para que outras mães que sofreram o mesmo também superem, sentindo só a dor necessária.

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