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Análise do Caráter

Para Reich o caráter “ consiste numa mudança crônica do ego que se pode descrever como um endurecimento” e é “um mecanismo de defesa narcisista”1 . Define caráter como uma defesa narcísica contra o mundo externo, o ambiente, as relações pessoais. O caráter é portanto a forma por excelência de comportamento. É o que dá constituição aos nossos atos. É o nosso jeito de ser. E ainda é o que expressamos quando dizemos: “Eu sou tímida” ou “Eu não sou avarenta como você pensa”. 2

Do ponto de vista tópico o caráter faz parte do ego. Do ponto de vista dinâmico é uma defesa e um permanente conflito entre o narcisismo e a realidade. Conflito esse, na maioria das vezes, a nível inconsciente/pré-consciente. Do ponto de vista econômico se estrutura como uma blindagem psíquica. Ele imobiliza partes ou conforme o grau de exigência defensiva toma o lugar do ego, como em casos descritos pela psicanálise de patologias de caráter. Ainda do ponto de vista econômico, essa blindagem se expressa na musculatura, na rigidez ou flacidez muscular.

O caráter é percebido pelos gestos, pela forma, ou ainda pela intenção da forma. É movido pela energia interna adquirida das trocas energéticas com as relações afetivas. Funciona contraindo e expandindo, pulsando. Em situações de prazer essa blindagem se for móvel se expande, em situações de desprazer ela se contrai.3

Quanto à origem: “a sua força e contínua razão de ser provêm dos conflitos vulgares entre o instinto e o mundo exterior.” 4 O caráter começa à partir dos primeiros entendimentos da criança à respeito do seu mundo. Ele se forma através da reação, frustração, tentativa de agradar a quem depende afetivamente. Isso pode se dar dentro do desenvolvimento libidinal no momento da terceira fase do complexo de Édipo, quando a criança começa a perceber o mundo à sua volta.

Suas principais funções são a defensiva e a adaptadora. A defensiva pode ser tanto a de contração no que diz respeito a medo (por exemplo contraimo-nos frente a um determinado perigo) ou expansão no que diz respeito à ternura (expandimo-nos frente a uma criança que nos toca afetivamente). Esse fenômeno defensivo, pode ir adquirindo formas menos diretas e mais e mais elaboradas de defesa. A função adaptadora depende do que Reich chamou “contato” , que seria uma forma integradora de interagir com o mundo. Se há essa integração há maior facilidade, mais prazer e mais expansão nas formas de relação. Exemplos seriam o de estarmos dançando com movimentos harmônicos e graciosos, ou o de nos defendermos de um perigo com sabedoria e destreza.

Reich à partir da compreensão defensiva do caráter, desenvolveu uma metodologia técnica para a análise e a diminuição dos aspectos não saudáveis do caráter, ou seja dos aspectos defensivos. Chamou essa metodologia de análise do caráter. Ela consiste basicamente em: perceber a forma de comportamento do analisando, conscientizá-lo dos aspectos defensivos que mais lhe causam sofrimento. Essa conscientização se dá em três níveis básicos: o aspecto psíquico afetivo comportamental relacional, a contrapartida orgânica muscular ou seja, a correspondência da contração muscular e o estrangulamento energético-sexual. A partir daí empregar recursos técnicos para eliminar os focos de tensão e ajudar a transformar a contração crônica em mobilidade energética. Se o trabalho for bem sucedido o analisando adquire recursos próprios para evitar novo bloqueio formando uma auto-regulação energética.


1 Reich, W. Análise do Caráter, pág. 203. Ed. Martins Fontes, 1972

2 idem pág. 205

3 idem pág. 188

4 idem pág. 188

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