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AS ETAPAS DA PSICOTERAPIA

A psicoterapia pode ser dividida em vários momentos.

Num primeiro momento, que chamaremos de reprodução estática do cotidiano, a relação na maioria da vezes é narcísica. É o que Reich chama de primeira camada.


O paciente esta no eixo sujeito - narcisismo secundário - sujeito.

Ele é sujeitado pelo seu próprio narcisismo secundário.

Num segundo momento (segunda camada), o momento da transferência, há a saída das resistências narcisistas. Dentro do ponto de vista tópico, a passagem para as inscrições pré-conscientes do ego e do superego.

É quando o paciente nos inclui em seu âmbito familiar, onde as raízes do seu cotidiano estão ancoradas.

O terceiro momento (terceira camada), poderíamos chamar de momento do "aqui e agora" com pregnância do id.

Há relação livre direta entre os organismos do psicoterapeuta e do paciente.

Entendemos organismo com o aparelho psíquico completo agora, substanciado afetiva e fisicamente, energeticamente, no corpo.

O id, sede do narcisismo primário e o superego, inscrição social dos afetos, se encontram intercambiando ativos e dinâmicos na relação interpessoal, permitindo as expressões orgânicas da função limite e da função lei.

Creio que Reich foi o primeiro psicoterapeuta a propor esse momento.

É o momento além da transferencia, onde a intimidade emocional é extremamente presente.

As intenções se traduzem por inteiro, a coerência interdiscursiva afetiva é evidente.

Como então ficaria a palavra inscrita nesses momentos tão diversos?

No primeiro momento, a palavra não seria trocada.

Seria jogada banalmente, em tentativas de descrição, de fugas, de defesas.

O psicoterapeuta trabalha as resistências, priorizando a mais constante dentre as mais constantes, ou seja as mais carregadas energeticamente.

Reich, inventou o método de trabalhar as resistências quando ainda era psicanalista, metodologizando a analise do caráter.

Descobriu a importância da forma do falar, suas contradições, o conflito entre a necessidade de relação e o medo da relação.

A palavra só, não foi suficiente. Passou a perceber o corpo, os gestos - outras linguagens.

A palavra foi colocada em um lugar e em um momento específicos.

Quando a palavra é enquadrada nesse todo, quando é organizadamente colocada, ela propicia a passagem e a inserção para o segundo momento - o da transferência.

Esses momentos, vale a pena lembrar, não podem ser codificados por um tempo cronológico, linear.

Os tempos desses momentos, remetem à atemporalidade do inconsciente e são variáveis para cada paciente, em cada relação terapêutica.

Cada um tem seus próprios tempos.

Esses tempos também não acontecem necessariamente em separado.

Podemos dizer que haveria pregnâncias e preponderâncias de sentido e tempo.

No segundo momento (segunda camada), a palavra já carregada, ganha novos sentidos. Não predominam as descrições vazias. Há contradições, carregadas de sentido. Os sentidos estão mais desorganizados. As estórias do paciente vão sendo atualizadas, para que através delas, aprenda uma nova historia, reinvente sentidos, os enganos em dissipação, desobstruam opções mais desejadas.

Essa saída do reino do narcisismo secundário, propicia um novo encontro com o narcisismo primário.

Ainda a relação se estabelece Sujeito-sujeito, mas posso acrescentar Sujeito-objeto-sujeito, sendo esses objetos as inscrições históricas.

O psicoterapeuta, então, trabalharia esse envolvimento, atuando na função transferencial em que é colocado.

As palavras são reveladoras e através dessas revelações, o paciente se reorganiza constituindo novos significados.

Os afetos, o corpo, as substâncias, a energia, tem importância equivalente nesse momento da relação.

O terapeuta, guardando as diferenças de estrutura e caráter de cada paciente, é um personagem de cada estória.

No momento anterior ele era um interlocutor banal e temido. Se a inserção histórica, retomada a partir das experiências primárias, é realizada e desvendada, o paciente passa para terceiro momento.

Dá para notar que esses momentos são encadeados, porem não cronologicamente, lembramos. Um define o outro. Um desvenda o outro.

O terceiro momento é quando, o paciente percebe integralmente o terapeuta como um outro que faz parte da sua história atual, não se inscrevendo na demanda imaginária do outro, tanto em sua estória, quanto em sua história.

É um momento de extrema delicadeza, onde a palavra ocupa o lugar da coerência, onde ela se torna mais descritiva que interpretativa, onde ela está envolvida nas significações da emoção. Ela apenas faz parte.

A memória é sentida e significada como memória.

O momento da memória torna-se quase tão carregado, como a vivência atual.

As memórias sem palavras, ganham o sentido delas. Ousamos dizer, que as palavras se tornam necessárias, aí já para dar sentido ao que nunca teve.

Nesse terceiro momento, as palavras adquirem a profundidade permitida e necessária, permissão e necessidade dados por cada paciente. Ele as coloca ou não, conforme sua necessidade.

O interlocutor psicoterapeuta é interlocutor das sensações e da palavra. É variável a necessidade de sua fala. É variável a necessidade de momentos aflitivos, prazerosos ou não.

Dá-se um curso historicamente determinado a cada via dessa inscrição. A importância é revelada junto com a necessidade.

A partir daí a palavra sai do emaranhado de anti-significações e defesas e ganha seu sentido pleno como veículo de alcance dos desejos e vontades e manifestações de necessidades.

O psicoterapeuta não é mais necessário.

O paciente pode seguir sozinho. É o momento da cura.

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