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Aperto de Pálpebras - Técnica da Terapia Breve Reichiana


Há alguns anos atrás estava no meu consultório a espera de um paciente quando o senhor responsável pela recepção do prédio veio até a minha sala. Perguntou se eu poderia atender uma pessoa que estava passando mal. respondi que não era médica. Ele disse que sabia e acrescentou que a pessoa que estava passando mal estava tendo uma crise de pânico. Perguntei se já havia procurado um psiquiatra. Respondeu que a pessoa que ria um psicólogo. Disse que tentaria ajudar.

Um senhor pequeno, magro, aparentando uns 50 anos, muito tenso entrou na sala. Indiquei o sofá para que se sentasse, ofereci água e me sentei numa poltrona. Olhei para ele, esperei que bebesse a água e perguntei o que estava sentindo. Descreveu uma crise típica de pânico, estava a caminhando em direção ao seu trabalho, quando “do nada” começou a se sentir mal, aperto no peito, coração acelerado, boca seca, dor no peito, tontura. Estava perto do prédio de serviços em que eu trabalhava e há uma quadra de distância do seu trabalho. Conhecendo bem a área que percorria todos os dias para o trabalho, resolveu entrar no prédio e buscar ajuda. Perguntei se era a primeira vez que sentia esse mal-estar. Disse que não estava há alguns meses sentindo. Mostrou o frasco de Rivotril que usava quando as crises começavam. Havia se consultado com um médico psiquiatra que o medicou e recomendou que buscasse psicoterapia. Resolveu optar somente pela medicação. Nesse momento que as crises se intensificaram resolveu procurar psicoterapia. Havia pesquisado no Google e procurava uma psicoterapia que ensinasse técnicas respiratórias já que o sintoma mais sofrido para ele era a sensação de falta de ar. Viu que eu trabalhava com psicoterapia corporal reichiana que enfatiza o treinamento da respiração,

A seguir perguntei o que estava acontecendo, ou tinha acontecido de diferente. Falou que a loja da qual era gerente há 30 anos iria fechar, sabia que o fechamento da loja tinha ligação com suas crises, não entendia a continuação delas porque dali a 2 semanas iria começar a trabalhar num lugar melhor e ganhando mais. Quando soube que estava empregado novamente supôs que as crises iriam passar, mas tal não aconteceu. Tinha a sensação de piora, pois, 10 gotas de Rivotril não surtiam efeito. Indaguei se algo parecido havia acontecido em algum momento na sua vida. Respondeu que sim, várias vezes, seu pai trocou de emprego, era inconstante e a família passou por vários momentos difíceis. Ele havia percebido que essa era provavelmente uma das causas das suas crises. Disse a ele do temor que possivelmente sentia de se assemelhar ao pai, concordou e o mal-estar retornou.

Expliquei rapidamente sobre a técnica que iríamos usar. Disse que várias pessoas já faziam uso dela, foi criada para a sensação de asfixia das crises de pânico. Comentei que tratava-se de uma técnica segura consistindo em fechar ambos os olhos na inspiração, apertando-os com as pálpebras e na expiração abandonar lentamente a pressão produzida pelas pálpebras, abrindo os olhos depois da expiração. A recomendação é a de ser feita num mínimo de 20 vezes seguidas e num máximo de 10 minutos.

Esclareci que como toda estimulação corporal seu resultado pode não ser imediato, mas desde a primeira vez produz alívio. Com o treino ajuda a diminuir a ansiedade produzida pela sensação de asfixia das crises de pânico e com bons resultados para todos os sintomas do pânico. Coloquei nele um aparelho para medir através da pele o funcionamento do seu sistema nervoso central, se seus sintomas diminuiriam. Após 3 minutos pediu para interromper o exercício, vi através do aparelho que seus sintomas diminuíram. Perguntei como estava se sentindo e ele respondeu que um pouco melhor. Marcamos outra sessão e recomendei que fizesse o exercício 3 minutos todos os dias.

Em outro momento expliquei que esse é um trabalho de estimulação vagal indireta através da inervação acessória. Mostrei no computador a enervação e aclarei que fazendo uma pequena pressão no músculo orbicular superior, acionamos um feixe do nervo oftálmico e do oculomotor. No encéfalo, a partir da sua inserção no sulco medial do pedúnculo cerebral e no crânio, por meio da fissura orbital superior, conseguimos uma resposta parassimpática. Com sua fonte eferente somática para os músculos extraoculares, como o levantador da pálpebra, reto superior, reto medial, oblíquo inferior, reto inferior conseguimos outra fonte visceral geral parassimpática eferente ao esfíncter da pupila e músculos ciliares.

A partir dessa movimentação, consegue-se uma comunicação com o nervo vago e consequente estimulação do sistema nervoso parassimpático. Assim é produzida uma acalmia e diminuição momentânea dos sintomas da ansiedade.

Após 4 meses de tratamento suas crises passaram. Esse sucesso terapêutico se deveu ao paciente que estava empenhado em se livrar daqueles sintomas. Seguiu corretamente as recomendações dadas a ele e assim permitiu que suas estruturas cerebrais como o sistema septo-hipocampal e a amígdala recebessem diferentes informações colhidas pelos sistemas sensoriais, criando uma representação menos ameaçadora do mundo exterior. Seu sistema septo-hipocampal comparando a síntese dos dados sensoriais do momento, com as predições que levam em conta as memórias armazenadas em diversos locais do Sistema Nervoso Central (SNC), bem como os planos de ação gerados pelo córtex pré-frontal, quando detectava uma discrepância entre o esperado e o acontecido, retomava suas ações rapidamente, não anulava o comportamento seguinte e nem aumentava o seu nível de vigilância, não direcionando mais a sua atenção para possíveis fontes de perigo. A programação luta e fuga, análoga as crises de pânico, cedia para uma programação de tranquilidade quando percebia não haver perigo iminente. Percebeu que estimular reações opostas ao mecanismo luta e fuga promoveu um resultado duradouro.

O próprio ato de fechar os olhos induz a uma percepção oposta a do medo. A respiração lenta, com ênfase na expiração também faz essa oposição. A pressão nas pálpebras estimula o nervo vago. Esses pequenos atos promovem com o passar do tempo e as repetições diárias uma aprendizagem oposta à do pavor. Através da repetição desse exercício há um desenvolvimento da capacidade de controlar determinadas funções fisiológicas involuntárias e obter controle sobre processos psicobiológicos autonômicos.

Instruir ao paciente para que ele inspire pelo nariz e expire pela boca, aumentando o tempo da expiração, enfatiza a importância do controle da respiração, detém a hiperventilação e estimula o sistema nervoso parassimpático. Vários estudos atuais mostram que expirações mais longas ativam o nervo vago fascial e tonal, impulsionando a influência calmante parassimpática, excitando o nervo vago. A essa respiração associamos outra estimulação vagal que é apertar as pálpebras fechando os olhos, assim através do aperto das pálpebras o nervo vago também é estimulado.

Hoje em dia precisamos respirar, muito, assim podemos criar bolhas de saúde a nossa volta. Estamos diante de uma pandemia de um vírus que ataca nossa respiração. Sentimos medo não só da contaminação como da violência, do descaso e outros. Fazer esse exercício duas a três vezes na semana ajuda a melhorar a respiração, lubrifica os olhos e renova sinapses para quem não tem pânico e para quem tem ajuda no controle e diminuição dos sintomas.

referências:

GERRITSEN, RJS, BAND, GPH. Breath of Life: The Respiratory Vagal Stimulation Model of Contemplative Activity. Front Hum Neurosci. 2018 Oct 9;12:397. doi: 10.3389/fnhum. 2018.00397. e Collection 2018. PMID: 30356789.

PEREIRA, C. et. al. Nervo Oculomotor: Anatomia, Fisiologia e Clínica; Rev. Cir. Traumatol, 2012 vol: 12 (2) pp: 93-104.

STANDRING, S. Gray ́s anatomia, 40a edição, 2010, pp.11, 40. São Paulo, Editora Elsevier Brasil.






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