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Abuso Sexual


O abuso sexual é um das piores tipos de violência. As sensações físicas do abuso conduzem a uma experiência extremamente conflitante e contraditória em termos fisiológicos, perceptuais e emocionais. O intenso contato de pele e a estimulação do corpo durante o ato sexual criam um estado de extrema estimulação física e fisiológica na criança. A estimulação física pode provocar extremas sensações corporais de dor e excitação, níveis insuportáveis de ansiedade levando ao desespero. Isso ainda pode ser aumentado pelo desamparo e a incapacidade da criança de sair da situação


Uma outra formação psíquica grave é transformar a pessoa que abusa, se for uma pessoa muito próxima, em outra pessoa. Isso condiz com o estado alterado que as pessoas que abusam sexualmente ficam quando em estado de excitação sexual. Comportam-se de modo muito diferente de seu eu habitual. Isso pode ser ainda mais assustador se forem pessoas muito próximas que tenham a função de proteger, se transformam em “outra pessoa”, com gestos diferentes, padrão incomum de linguagem, tom de voz alterado e comportamento físico estranho.


A anulação através da dissociação da realidade externa do abuso sexual durante o ato sexual não permite à criança, perceber a realidade como realidade e nomear a experiência de abuso como abuso. É como se a pessoa que abusa estivesse falando para a criança "nada está acontecendo, não é?".


As pessoas que abusam geralmente tentam negar qualquer aspecto de relacionamento real entre elas e a criança durante o abuso, e tentam evitar qualquer reconhecimento claro daquilo que está acontecendo. Durante o contato mais intensamente físico e corporal humanamente possível, elas tentam desconectar-se totalmente da criança em termos psicológicos.


Os rituais de entrada a saída são outro ponto enlouquecedor, ampliando a experiência incongruente da realidade externa na dimensão temporal. Criam à sucessiva divisão temporal na pessoa que comete o abuso. Essa pessoa pode ser um pai carinhoso, antes e depois do abuso, que se transforma na "outra pessoa" diferente durante o abuso. O mesmo ser humano pode ser uma pessoa-carinhosa, em um dado momento, e alguém assustador que abusa, no outro momento.


Por exemplo, um pai recebe em casa a criança que volta da escola, dizendo "oi, como foi a escola?". Ele depois pode iniciar o ritual de entrada e acontecer o abuso sexual,


terminando no ritual de saída. Ele então pode se voltar para a criança como se tivesse acabado de dizer "oi, como foi a escola?", e falar "agora vá fazer seu dever de casa", fingindo para ele próprio e para a criança que entre o primeiro "oi, como foi a escola?" e o bem posterior "agora vá fazer seu dever de casa" nenhum tempo se passou e nenhum abuso sexual ocorreu.


Roland Summit (1983), em "Child sexual abuse accommodation syndrome", descreveu como as crianças que sofreram abuso sexual em segredo, desamparo e sendo enganadas, começam a adaptar-se psicologicamente àquilo que, com o passar do tempo, constitui uma situação intolerável. A interação abusiva, que continuamente ameaça a vida e a integridade física e psicológica da criança, se torna, no processo de acomodação, um evento aparentemente normal. Estruturas psicológicas básicas que permitem a sobrevivência psíquica se desenvolvem ao custo de uma percepção gravemente distorcida da realidade externa e emocional.


Os mesmos mecanismos que permitem à criança a sobrevivência psíquica tornam-se obstáculos a uma efetiva integração psicológica quando adulto. Se a criança não é capaz de criar uma economia psíquica para resignar-se ao contínuo ultraje, a intolerância ao desamparo e o crescente sentimento de raiva buscarão uma expressão ativa. (Summit, 1983, p. 185).


As crianças tentam sobreviver ao abuso de diferentes maneiras. Algumas fingem que não são elas que estão sofrendo abuso e tentam ver o abuso a distância, como Summit descreveu. Outras tentam entrar em estados alterados de consciência, como se estivessem dormindo. Uma outra maneira de normalizar é fingir durante o intercurso, que a parte de baixo do corpo não existe. Essas são apenas algumas maneiras extremas com que algumas crianças tentam anular o abuso no próprio processo, dissociar-se da experiência e criar um estado pseudonormal que lhes permita sobreviver ao abuso.


A acomodação cria um estado psíquico diferente daquele da negação. A tradução da violação estrutural da integridade da criança numa simulação de normalidade parece, em suas conseqüências em longo prazo, muito semelhante aos processos descritos na Síndrome do campo de concentração (Bastiaans, 1957). O mecanismo normalizador extremo de sobrevivência que os sobreviventes dos campos de concentração desenvolveram durante a vida nesses campos, freqüentemente acabava conduzindo a um estado psicológico em que a experiência no campo de concentração parecia ter sido completamente apagada. Ela somente voltava a emergir quando os mecanismos de manejo e as defesas eram abalados mais tarde na vida por novos eventos estressantes.


No entanto, quando a experiência voltava a emergir, ameaçava, em “flashbacks”, inundar e dominar completamente os mecanismos de manejo e as defesas do sobrevivente.


O padrão entre a vitima e o abusador torna-se ainda mais complicado pelo fato de que a pessoa que abusa o guarda do campo e o terrorista não são apenas pessoas que ameaçam a vida e a integridade. Eles são, no momento, os provedores pervertidos de vida, manutenção e cuidados externos, e inclusive de atenção emocional positiva. Esse elemento é crucial para a compreensão dos vínculos e lealdades possivelmente bizarros entre vítima e perpetrador, e do fato da vítima começar a falar a linguagem do carcereiro. Podem emergir formas de lealdade e apego extremamente difícil de compreender e aceitar entre outras coisas igualmente graves e difíceis.

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